As escolhas e a construção da identidade. Um desafio para os adolescentes e para os pais.
Com 14 anos somos convidados a fazer, de forma consciente, a nossa primeira grande escolha. Escolher o que quero ser é, implícita e explicitamente, uma pergunta sobre quem sou.
Sabermos definir-nos enquanto pessoas é termos dentro de nós a consciência do conjunto de características individuais que nos diferenciam dos outros, que definem a forma como agimos e como somos reconhecidos pelos outros. Chama-se identidade.
No final do 9º anos os jovens são convidados a começar a pensar sobre estes assuntos. Para grande parte deles, ser convocado a olhar para si, entender-se e projetar-se no futuro é uma tarefa assustadora.
Aos 14 anos ainda é cedo para que um jovem possa definir-se claramente. A adolescência é o momento da construção dos aspetos identitários, embora estes comecem a definir-se desde muito cedo, até desde o momento em que os nossos pais começaram a desejar engravidar e a imaginar como será o seu filho.
Com 14 anos ainda está muito por descobrir, por isso é importante transmitir que as escolhas não são definitivas e que se transformam, adaptam e modificam ao longo da vida. Mas é inegável que escolher significa abdicar de umas coisas para investir mais noutras.
Escolher obriga a deixar algo para trás, deixar algo em suspenso ou em segundo plano e implica responsabilizar-se, comprometer-se, desafiar-se no desempenho daquilo que escolhemos fazer. Implica assumirmos perante nós próprios e os outros que julgamos ser capazes de desempenhar aquela tarefa e, caso não sejamos, sermos capazes de assumir o nosso insucesso e reinvestirmos novamente noutra coisa. Tudo isto aos 14 anos.. Difícil não?
E o que está para trás?
Desde cedo que as crianças podem e devem fazer escolhas e experimentar coisas. Quando uma criança de 3 anos escolhe entre fazer hip hop ou ballet clássico escolhe pelo que mais lhe dá satisfação. Talvez ela não esteja consciente do que comunica para si e para os outros esta escolha. Mas os pais mais atentos compreendem que ela já está a mostrar quem é, com que se identifica.
Daqui percebemos o quanto é importante que os pais permitam aos seus filhos que tenham possibilidade para experimentar e liberdade para escolher. Também é importante que os ajudem a comprometer-se com as suas escolhas, a persistir perante a frustração e o insucesso, e que também tenham tolerância quando é preciso desistir, mudar e reinvestir noutra coisa.
E porque a forma como nos reconhecemos começa pelo que nos é devolvido pelo olhar dos outros, é importante que os pais e as figuras de referência da criança identifiquem, reconheçam e devolvam de forma verdadeira e validante as suas competências. É por isso importante dizermos, com sentido de realidade "fizeste bem" quando se faz bem ou "eu sei que consegues fazer melhor, precisas de ajuda para isso?".
Mas como "vozes de burro não chegam ao céu", é importante que a validação venha de quem nós reconhecemos (dos que são importantes para nós) e de quem sabe do que está a falar. Dizer "o meu filhinho faz tudo bem" não tem ressonância nenhuma porque é irrealista e exagerado. Dizer "o meu filho tem muito mais jeito para desenhar do que para dançar" é muito mais impactante e verdadeiro.
Quando as crianças crescem com a possibilidade de experimentar, a liberdade de escolher e são validadas nas suas competências tornam-se adultos com mais confiança em si mesmos e no seu futuro.
Mas quando uma criança alterna sistematicamente entre escolhas? Como sabemos se devemos incentivá-la a persistir ou ajudá-la a desistir?
Podemos começar por perguntar-lhe. Devemos escutar com atenção os sinais e perceber se ela ainda não encontrou algo que goste ou se afinal se sente insegura, se tem medo de falhar e defraudar as expectativas, se é demasiado exigente, se ainda não se conhece bem, etc. Essencialmente, se precisa da nossa ajuda. Este pode ser um drama das crianças e é também um drama frequente na idade adulta.
E os pais devem influenciar as escolhas?
Os pais e todas as figuras de referência são os principais modelos de identificação para uma criança. É saudável e desejável que isso aconteça. O que não é bom é que façam sobrepor as suas escolhas, a sua identidade, as suas expectativas ou os seus desejos frustrados acima das escolhas dos filhos. Não é saudável que condicionem, que forcem, que as proíbam, que lhes dificultem a vida, que os obriguem.
Pode ser fonte de grande prazer para os pais permitir-se descobrir a pessoa que o seu filho vai ser, o que ele tem de diferente e individual. Saber o que é que ele deseja, o que lhe dá prazer, o que lhe dá conforto e depois poder ajudá-lo a comprometer-se, a superar-se, a conquistar o seu lugar entre tantos outros que fizeram escolhas semelhantes. É da responsabilidade dos pais estar por perto, estar envolvidos, informamos, mas não têm nada que decidir pelos filhos.
Uma grande exigência ou influência por parte dos pais pode abafar a possibilidade de a criança se descobrir. Por outro lado pais que dizem "podes ser tudo o que quiseres" deixam a criança insegura e perdida de referenciais/balizas organizadoras.
As posições extremadas são as menos saudáveis. Os pais são melhores modelos identitários quanto mais respeitam os filhos e quanto melhor se sentem na sua própria pele, com as suas próprias escolhas: quando fazem o que gostam e põem gosto no que fazem.
Tenho conhecido exemplos muito interessantes de pais que não só aceitam e incentivam as escolhas dos filhos, como alinham nas suas propostas, acabando também eles por descobrir interesses novos e desenvolver competências que desconheciam.
Para nós técnicos, realizar uma avaliação de orientação vocacional implica ter tudo isto em mente. A orientação vocacional é o momento em que tentamos devolver àquele jovem e aos pais informação que os oriente na sua tomada de decisão. Do jovem esperamos que assuma uma postura ativa, que se mostre interessado, informado, disponível para explorar os seus interesses. Usamos provas psicológicas para facilitar o acesso à informação mas temos que ter em conta que a informação dos testes é limitada e só faz sentido quando enquadrada com a realidade do jovem (a sua realidade interna e externa) as suas circunstâncias, a realidade profissional e também o seu enquadramento familiar. Por isso também escutamos e envolvemos os pais, que nos ajudam a conhecer melhor aquele jovem e a contribuir para que ele possa conhecer-se, realizar os seus sonhos e a rumar confiante para a construção do seu futuro.
Eliana VilaçaDiretora Clínica da DiferencialPsicóloga e Psicoterapeuta

